O salário cai na conta, os boletos começam a vencer, a fatura do cartão chega e, antes mesmo de o mês terminar, o dinheiro já acabou. Essa é a realidade de milhares de brasileiros que enfrentam dificuldades para equilibrar as contas e manter o orçamento familiar em dia.

Em São Luís, no Maranhão, o cenário preocupa. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Maranhão (Fecomércio-MA), em parceria com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 86% das famílias da capital estavam endividadas em julho de 2026.
O percentual é o maior registrado desde junho de 2021 e representa um crescimento significativo em comparação com julho de 2025, quando o índice era de 69,3%.
Entre as famílias endividadas, 82% possuíam compromissos financeiros relacionados ao cartão de crédito.
É importante destacar que estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Compras parceladas e financiamentos pagos dentro do prazo também são considerados dívidas. O problema surge quando os compromissos ultrapassam a capacidade de pagamento.
De acordo com o levantamento, 28,4% das famílias de São Luís tinham contas em atraso, enquanto 4,9% declararam não possuir condições de quitar seus débitos.
Diante desse cenário, o educador financeiro Paulo Coimbra, professor do curso de Administração da Estácio, apresenta cinco orientações para quem deseja colocar as contas em ordem e recuperar a estabilidade financeira.
1. Organize todas as dívidas e identifique os juros mais altos
O primeiro passo para sair do endividamento é conhecer exatamente quanto se deve.

Para isso, é necessário listar todas as dívidas, incluindo valores, parcelas, vencimentos e taxas de juros.
Segundo Paulo Coimbra, nem sempre a dívida de maior valor deve ser paga primeiro. A prioridade deve considerar principalmente os juros cobrados.
“Você deve priorizar o pagamento das dívidas que têm os juros mais elevados. Elas não são necessariamente de valor mais alto, mas têm a maior capacidade de corroer o seu poder de compra”, explica.
Essa organização permite identificar quais compromissos estão causando maiores prejuízos ao orçamento e facilita a elaboração de um planejamento financeiro.
2. Corte gastos desnecessários e reorganize o orçamento
Depois de identificar as dívidas, o próximo passo é impedir que novas despesas agravem a situação.
O especialista recomenda revisar os gastos mensais e eliminar ou reduzir despesas que não sejam essenciais.
“Você tem que parar de gastar, tem que fechar todas as torneiras que encontrar”, afirma Paulo.
Isso não significa deixar de pagar despesas básicas, como alimentação, moradia e saúde, mas identificar hábitos de consumo que podem ser modificados.
Pequenos gastos frequentes, como compras por impulso, assinaturas pouco utilizadas e despesas acima do necessário, podem comprometer uma parcela importante da renda ao longo do mês.
A orientação é estabelecer prioridades e adotar hábitos mais compatíveis com a realidade financeira da família.
3. Evite usar o cartão de crédito como complemento do salário
O cartão de crédito é um dos principais responsáveis pelo endividamento das famílias de São Luís.
Segundo a PEIC, ele aparece em 82% dos casos de endividamento. Entre as famílias com renda de até dez salários mínimos, o percentual chega a 83,7%.
O problema se agrava quando o consumidor não consegue pagar integralmente a fatura e passa a utilizar modalidades de crédito com juros elevados.
Dados do Banco Central referentes a agosto de 2026 apontam que determinadas taxas de juros do cartão de crédito podem ultrapassar 400% ao ano.
Para Paulo Coimbra, o cartão deve ser utilizado apenas quando existe planejamento para quitar a fatura.
“Procure não utilizar o cartão de crédito para compras que são despesas mensais. O cartão deve ser usado dentro de uma vida financeira programada, para uma compra que você já planejou e sabe como vai pagar”, orienta.
A recomendação é evitar utilizar o limite do cartão como se fosse uma renda adicional, especialmente para cobrir gastos que se repetem todos os meses.
4. Renegocie suas dívidas, mas compare os custos antes de fechar um acordo
A renegociação pode ser uma alternativa para consumidores que enfrentam dificuldades para pagar compromissos financeiros.
Uma possibilidade é procurar o banco ou a instituição credora para negociar juros menores, novos prazos ou condições de pagamento mais adequadas.
Outra opção é avaliar a portabilidade da dívida para uma instituição que ofereça taxas mais baixas.
“Você pega a dívida que está com um credor e tenta levá-la para outro com juros mais baixos. Às vezes, vale a pena até mesmo fazer um novo empréstimo com juros menores para pagar de uma vez só o montante inicial”, explica o professor.
Entretanto, antes de aceitar uma proposta, é fundamental analisar o valor total que será pago.
O consumidor deve observar o Custo Efetivo Total (CET), que inclui juros, tarifas, impostos e outros encargos envolvidos na operação.
Uma parcela mensal menor nem sempre representa economia. Dependendo do prazo e das condições, o valor final pode ser ainda maior.
Por isso, comparar propostas e verificar se as novas parcelas realmente cabem no orçamento são medidas essenciais para evitar problemas futuros.
5. Mude seus hábitos financeiros para não voltar a se endividar
Renegociar dívidas e conseguir juros menores pode aliviar o orçamento, mas não resolve definitivamente o problema se os hábitos de consumo continuarem os mesmos.
Segundo Paulo Coimbra, a recuperação financeira depende de mudanças na maneira como o dinheiro é administrado.
“Utilize a sua inteligência e a maneira como você trabalha para organizar um novo estilo de vida”, recomenda.
Entre as medidas importantes estão acompanhar os gastos, evitar compras por impulso, planejar despesas futuras e, quando possível, começar a construir uma reserva financeira para emergências.
O especialista também orienta buscar ajuda profissional quando houver dificuldades para organizar as contas.
Como evitar novas dívidas e manter as contas em dia?
A educação financeira é uma das principais ferramentas para evitar que o endividamento se transforme em um problema recorrente.
Ter controle sobre o dinheiro que entra e sai, definir prioridades e evitar comprometer toda a renda com parcelas são atitudes que ajudam a construir uma vida financeira mais equilibrada.
Para famílias que já enfrentam dificuldades, o mais importante é começar com medidas possíveis, respeitando a renda disponível e evitando assumir novos compromissos sem planejamento.
A principal orientação é simples: organizar as dívidas, controlar os gastos e mudar os hábitos financeiros são passos fundamentais para sair do vermelho e recuperar a tranquilidade.


