Uma complexa teia de relações entre verbas públicas, empresas contratadas e figuras políticas veio à tona, envolvendo a aquisição e o transporte de uma perfuratriz de poços artesianos. O equipamento, avaliado em quase R$ 90 mil, foi comprado por uma construtora com contratos milionários junto à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e transportado por um caminhão doado pela própria estatal. A situação se torna ainda mais peculiar, pois a máquina é publicamente exibida como um presente do deputado federal Júnior Lourenço (PL-MA) a um aliado político em Estreito, no Maranhão, levantando sérios questionamentos sobre a legalidade e a ética da operação.
A Conexão Codevasf e a Empresa Contratada
No centro da controvérsia está a JP Silva Construções e Serviços LTDA, uma pequena construtora sediada em Dom Pedro (MA), que manteve um vínculo comercial significativo com a Codevasf. A empresa figura como detentora de múltiplos e vultosos contratos com a 8ª Superintendência do órgão, localizada em São Luís (MA). Entre os acordos, destacam-se uma contratação de R$ 699 mil oficializada em fevereiro deste ano e um contrato anterior, de dezembro passado, no valor de R$ 16,6 milhões para serviços de asfaltamento, evidenciando a dependência da empreiteira de recursos públicos.
O transporte da perfuratriz adiciona outra camada de irregularidade. O equipamento foi embarcado em um caminhão Mercedes-Benz, modelo Accelo 817, placa SMQ-4J98. Este veículo, adquirido pela Codevasf, foi doado em novembro de 2024 à prefeitura de Miranda do Norte, a aproximadamente 600 km de Estreito, sugerindo um uso inadequado de bens públicos destinados a fins específicos da municipalidade.
Detalhes da Aquisição da Perfuratriz
A máquina em questão, uma perfuratriz de poços artesianos, teve sua compra registrada em nota fiscal no dia 11 de fevereiro de 2026 – uma data que projeta a transação para o futuro, conforme os documentos apresentados. O valor de aquisição foi de R$ 89.092,00. O equipamento foi comprado de um fabricante localizado em Umuarama, no Paraná, a quase 3 mil quilômetros de Miranda do Norte, cidade próxima ao destino final. A compradora, conforme a nota fiscal, é a JP Silva Construções e Serviços LTDA, a mesma empresa com fortes laços contratuais com a Codevasf.
A Recepção em Estreito e a Versão do Aliado Político
O destino final da perfuratriz foi Estreito (MA), onde foi recebida pelo pecuarista e ex-candidato a prefeito José Maria Pernambuco (PSB), conhecido por sua aliança com o deputado federal Júnior Lourenço. Em vídeos publicados nas redes sociais, Pernambuco expressou agradecimento ao congressista pelo envio do maquinário, apresentando-o publicamente como um presente. Esta narrativa, no entanto, contrasta com a origem da compra pela empreiteira ligada à Codevasf.
Questionado sobre a procedência do equipamento, José Maria Pernambuco afirmou desconhecer o envolvimento da JP Silva Construções na compra. Segundo ele, a perfuratriz foi adquirida de forma privada pelo deputado Júnior Lourenço e por uma outra pessoa não identificada. Pernambuco minimizou as indagações como “politicagem” local e declarou possuir a nota fiscal que comprovaria a compra pelo parlamentar, mas recusou-se a fornecer o documento. Ele também garantiu que a máquina ainda não foi utilizada para perfurar nenhum poço no município.
Investigação e a Ausência de Esclarecimentos
As informações detalhadas sobre este caso chegaram ao Ministério Público Federal (MPF) por meio de uma representação anônima, à qual esta reportagem teve acesso, impulsionando a necessidade de investigação. Os questionamentos centram-se na aparente mistura de recursos e bens públicos com interesses privados e políticos, especialmente considerando os múltiplos contratos da empresa compradora com a Codevasf e o uso de um caminhão doado pela estatal para o transporte irregular.
Em busca de esclarecimentos, a reportagem tentou contato com os envolvidos. O deputado federal Júnior Lourenço não se manifestou sobre as acusações. Da mesma forma, não foi possível obter retorno da empresa JP Silva Construções e Serviços LTDA, nem da prefeitura de Miranda do Norte, que recebeu o caminhão da Codevasf. A ausência de respostas mantém as dúvidas sobre a transparência e a legalidade da operação, enquanto Estreito, recentemente no noticiário nacional pela queda da ponte Juscelino Kubitscheck, volta a ser o palco de polêmicas.
Este episódio sublinha a urgente necessidade de rigor na fiscalização do uso de recursos e patrimônios públicos, bem como na análise dos elos entre empresas contratadas pelo Estado e figuras políticas. A clareza sobre a origem e o destino de bens como a perfuratriz é fundamental para garantir a integridade do serviço público e coibir práticas que possam configurar desvio de finalidade ou conflito de interesses. O caso, agora nas mãos do MPF, aguarda desdobramentos que possam trazer luz sobre a verdade dos fatos.


