A operação policial mais letal da história do Brasil, ocorrida nos Complexos da Penha e do Alemão, terminou com 121 pessoas mortas, segundo a Polícia Civil do Rio. Para os moradores das favelas da região, a ação que cumpriria mais de cem mandados de prisão deixou marcas físicas e psicológicas…
O que aconteceu
A reportagem percorreu, de moto, as vielas 9, 23 e a região de mata onde corpos foram encontrados por moradores. Familiares das pessoas mortas não estavam na favela, pois tinham ido a uma manifestação marcada para ocorrer em frente ao palácio do governo, na tarde de ontem.
Portões arrombados, vidros estilhaçados, marcas de tiro e cachorro morto. Nas vielas, os relatos dos moradores, que estão há 24 horas sem luz, são uníssonos: dizem que, antes de os policiais localizaram traficantes em um ponto de drogas, realizaram buscas truculentas nos barracos de quem vive ali.

29.out.2025 – Marcas de tiro em parede de casa na Penha, no Rio
Imagem: Luís Adorno/UOL
“Uma senhora mora aqui sozinha, com o cachorro, acordaram ela atirando na escada dela.” Uma moradora, que pediu para não ser identificada —como a maioria ouvida pela reportagem— deu o relato ainda no início de uma viela. À medida que se caminhava pela via, as marcas ficavam ainda mais aparentes.
“A bala acertou meu quarto enquanto eu dormia; no corredor, minha cachorra morreu.” Outra moradora mostrou a parede de fora da casa completamente metralhada. Dentro da casa, um disparo atingiu a parede da sala. No quinta, a cachorra, uma pitbull que ela cuidava havia quatro anos…
Em outra viela, vidros das portas e janelas foram quebrados. Os cacos ainda estavam no chão. A mulher que vive no local conta que, para além do susto, conseguia ouvir jovens já rendidos pedindo para ser presos enquanto eram arrastados para a região da mata. Lá, segundo essa testemunha, foram torturados e assassinados.
Na região da mata ainda estão roupas, estojos de grosso calibre e marcas de sangue. No fim da tarde, depois de moradores terem feito uma nova varredura, disseram que todos os corpos já haviam sido retirados. No local, a reportagem também localizou um RG: o de Wesley Martins e Silva, natural do Pará…

29.out.2025 – RG encontrado em área de mata após operação no Rio
Imagem: Luís Adorno/UOL
“Me trataram como lixo, depois de um chegar em casa de um dia de trabalho”. Ao lado de três filhos, uma moradora diz que os policiais, depois de entrarem na sua casa de supetão, xingaram, remexeram e, por fim, lançaram spray de pimenta.
“Eles invadiram as casas das pessoas dizendo que todo mundo é traficante”, diz uma moradora. “Nem todo mundo que mora em favela é traficante. Aqui tem muito estudante, professor, advogado, jogador de futebol. Invadiram a vida e a privacidade de todo mundo”, afirma.
Operação mais letal da história

Dezenas de corpos são retirados de área de mata um dia após operação no Complexo da Penha, no Rio
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress
Megaoperação deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais, segundo a Polícia Civil do RJ. Outras 113 pessoas foram presas e dez adolescentes, apreendidos. Entre os detidos, 33 são de outros estados.
Número de mortos ultrapassou o do massacre do Carandiru. Em 1992, o complexo penal foi palco da maior chacina ocorrida em uma prisão brasileira. O episódio durou 30 minutos e provocou a morte de 111 detentos.
Corpos retirados da mata por moradores foi levado para a Praça São Lucas, no Complexo da Penha. A retirada dos corpos da praça foi feita com rabecões da Defesa Civil.

Corpos encontrados por moradores no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro
Imagem: Edu Carvalho/Colunista de Ecoa,
Polícia Civil abriu inquérito e vai investigar quem tirou os corpos da mata. Segundo o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Felipe Curi, as pessoas serão investigadas por fraude processual por terem, supostamente, retirado as roupas camufladas encontradas com os mortos. Local, no entanto, não foi isolado para perícia após as mortes.
Governos estadual e federal anunciaram criação de grupo de trabalho. O ministro da Justiça e Segurança, Ricardo Lewandowski, e o governador Cláudio Castro anunciaram uma força-tarefa para enfrentamento do crime organizado.
MP-RJ anunciou inquérito para investigar megaoperação. O procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, disse que também irá pedir as imagens das câmeras corporais dos agentes.
Policiais disseram que não tiveram condições de prender principal alvo da ação. “Como nós não temos a distância para superar essas barreiras físicas, não só a barreira física, mas o fogo cerrado, a agressão dos criminosos, isso faz com que a gente leve um tempo maior”, disse o secretário Victor Santos, se referindo a Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca.
Polícia prendeu dois homens de confiança de Doca. Líder do Comando Vermelho na Vila Cruzeiro, ele tem perfil violento e atrai apoio de aliados de outras regiões, segundo especialistas em segurança pública.
Um dos homens é Thiago do Nascimento Mendes, o “Belão do Quitungo”. Apontado como chefe da facção no Morro do Quitungo,. Apontado como chefe da facção no Morro do Quitungo, na Penha, zona norte da capital. Belão estaria operando um esquema de cobranças ilegais de moradores da comunidade, segundo a polícia, para financiar o crime organizado local.
O outro é Nikolas Fernandes Soares, operador financeiro de Doca. Também chamado de contador do CV, Nikolas fazia o recolhimento de dinheiro da facção, segundo a investigação.
Disque Denúncia do Rio oferece recompensa de R$ 100 mil por informações que levem a polícia a captuá-lo. Doca é investigado por mais de cem homicídios, apontado como o mandante do assassinato de três médicos na Barra da Tijuca, investigado pelo desaparecimento de três meninos em Belford Roxo e tentativa de sequestro do helicóptero do piloto Adonis Lopes. Há mais de 20 mandados de prisão contra ele.


