Frutas e verduras ainda ficam de lado na mesa do brasileiro

Estudo mostra que apenas 22% da população consome a quantidade mínima de vegetais indicada pela OMS

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Otília Duarte, de 45 anos, acorda todos os dias antes das cinco da manhã, no bairro da Liberdade, em São Luís. Mãe de dois filhos e avó de uma menina de três anos, ela sustenta a casa vendendo café da manhã na porta de casa. Entre o cheiro do café e a correria dos primeiros clientes, aprendeu a produzir muito com poucos ingredientes, mas admite que manter uma alimentação saudável nem sempre é possível. “Eu sei que fruta é importante, mas nem sempre dá pra comprar. Tem dia que a gente escolhe o que vai render mais”, conta.

A história de Otília integra uma estatística nacional. Um estudo publicado na revista científica Cadernos de Saúde Pública mostra que, embora 34% dos adultos consumam frutas e hortaliças com frequência, apenas 22,5% atingem a quantidade ideal recomendada pela Organização Mundial da Saúde, que é de ao menos cinco porções diárias, totalizando cerca de 400 gramas. O baixo consumo está ligado ao aumento de preços e à facilidade de acesso a alimentos ultraprocessados.

No Maranhão, mesmo com a diversidade de alimentos naturais, a questão também é parte do dia a dia. Segundo a nutricionista da Hapvida, Jéssica Lustosa, o fenômeno está ligado a vários fatores. “Muitas frutas regionais são sazonais e não chegam com facilidade ou preço acessível aos centros urbanos. Além disso, há um fator cultural: alguns alimentos ainda são vistos como lanches, e não como parte das refeições principais”, explica.

A rotina acelerada também influencia diretamente nas escolhas alimentares. “Hoje, a praticidade pesa muito. Alimentos ultraprocessados acabam sendo mais consumidos, e temos ainda uma tradição de pratos ricos em carboidratos e gorduras, o que exige equilíbrio”, afirma a nutricionista. Segundo ela, esses alimentos “viciam” o paladar, fazendo com que frutas e verduras pareçam menos atrativas com o tempo.

As consequências aparecem cedo e atingem todas as idades. “Em crianças, o baixo consumo prejudica o desenvolvimento e aumenta a obesidade e a deficiência de vitaminas. Em adultos, abre portas para doenças como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares”, alerta Jéssica Lustosa. A falta de fibras também compromete o funcionamento do sistema digestivo.

ESTRATÉGIAS

Mesmo com dificuldades, Otília tenta incluir frutas na rotina sempre que possível. “Nos dias em que a feira está mais barata, eu compro banana e melancia e dou para a minha neta”, conta.

A nutricionista reforça que mudanças simples de rotina podem ajudar a enfrentar essas barreiras, como aproveitar alimentos da época, deixar frutas e verduras já higienizadas e prontas para consumo e introduzir esses itens aos poucos nas refeições.

“Optar por frutas da estação e comprá-las em feiras locais é uma estratégia para economizar. Além disso, se você já deixar tudo pronto e porcionado na geladeira, vai ficar mais prático na hora das refeições”, orienta.

Se o hábito de consumir vegetais ainda não existe, a mudança pode ser gradual. “Não precisa mudar tudo de uma vez. Vale incluir uma fruta como sobremesa ou adicionar legumes no arroz e feijão, por exemplo, até o paladar se acostumar”, diz. E, sempre que possível, valorizar os alimentos regionais. “Substituir o biscoito recheado por uma fruta ou um suco natural já é um grande passo”, afirma.

Entre limitações financeiras e a correria do dia a dia, Otilia segue tentando equilibrar as escolhas. “Sei que é possível deixar a alimentação mais saudável. Mesmo com o desafio, a gente vai fazendo o que pode”, resume.

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